Da família da minha bisavó, os Forner de Monfumo e Castelcucco, na província de Treviso, eu sabia que duas irmãs tinham vindo para o Brasil em 1927, no Principessa Mafalda. De um irmão mais velho, Pietro, eu sabia só um ano de morte, 1916, e o que um primo da Itália me escreveu: “morreu nos Estados Unidos num acidente de trabalho numa mina, mas não sei em que ano”.
Ninguém deste lado do oceano sabia mais nada. Quatro papéis, achados em três países, contam o resto.
O manifesto do Chicago, 1913
Na base de dados de Ellis Island está a lista do vapor francês Chicago, que saiu do Havre em 14 de junho de 1913 e chegou a Nova York dez dias depois. Na folha 39 viaja Pietro Forner, vinte e quatro anos, última residência Castelcucco. Como parente mais próximo deixado na Itália, ele nomeia o pai: Mr. Forner Vincenzo, at Castelcucco – Treviso.
A segunda página do mesmo manifesto diz o resto: um metro e sessenta e poucos, cabelo claro, a passagem paga por ele mesmo, vinte e cinco dólares no bolso. E o destino, que não era os Estados Unidos: Kamloops, na Colúmbia Britânica, Canadá, para encontrar um amigo, Bernardi Pietro. Na linha de cima, o mesmo amigo é o contato de outro homem da região, de Monfumo. Não era a família que puxava: era uma rede de vizinhos.
Ele não saiu por Gênova, como as irmãs sairiam catorze anos depois. Saiu pela França.
O relatório do ministro das minas, 1916
Em 1913 um vale ao norte de Kamloops estava sendo cortado pela construção de uma ferrovia, e é possível que ele tenha chegado para trabalhar num acampamento. Não tenho papel disso. O papel seguinte é de três anos depois, e é de outro lugar: Nanaimo, na ilha de Vancouver, a maior região de carvão da Colúmbia Britânica.
O Annual Report of the Minister of Mines da província, do ano de 1916, traz na página K 510 a tabela de acidentes das minas da costa. A linha 42:
Nanaimo (W.F.C.) — Nov. 25 — Pietro Forner — Brusher — Left lung crushed by fall of rock; fatal.
W.F.C. é a Western Fuel Company, que operava a mina. Brusher é quem corta a rocha do teto ou do piso de uma galeria para abrir passagem — o trabalho mais exposto à queda de teto que há dentro de uma mina. Pietro tinha vinte e sete anos.
Dois dias depois houve inquérito do coroner, registrado no índice dos arquivos da Colúmbia Britânica.
O espólio, 1919
O último papel é de junho de 1919. Morto sem ninguém na província, o espólio dele foi administrado pelo Estado, e a declaração jurada diz tudo o que ele deixou: 75,33 dólares de salário a receber e 152 dólares no banco. Total, 227,33. Herdeiro único: Vincenzo Forner, Father, Castelcucco, Italy.
Chegou com vinte e cinco dólares. Dois anos e meio depois de morto, ainda havia salário dele por pagar.
O que a memória de família tinha guardado
O primo que me escreveu da Itália é neto de outro irmão de Pietro. Ele errou o país e acertou a mina e o acidente. E nem errou tanto: Pietro passou mesmo pelos Estados Unidos, por Ellis Island, a caminho do Canadá. Para quem ficou no Vêneto, era tudo a América.
O ano de 1916 também explica um silêncio. Pietro não está no Albo d’Oro, o registro italiano dos mortos da Primeira Guerra — e não está porque a Itália entrou na guerra em maio de 1915, quando ele já estava do outro lado do oceano havia quase dois anos.
Dois irmãos
Trinta anos depois, em 22 de janeiro de 1947, o irmão que ficou, Sante Forner, foi ferido mortalmente numa mina de linhito perto de casa, nas colinas de Asolo. Uma história local da mina registra a causa: caduta di un masso durante o reescoramento do teto de uma galeria. A outra queda de rocha está a um oceano e trinta anos de distância.
Para quem procura um antepassado no Canadá
- A base de Ellis Island (Statue of Liberty – Ellis Island Foundation) mostra a imagem do manifesto. Abra sempre a segunda página: é nela que estão o destino, quem pagou a passagem e quem esperava o imigrante.
- Os relatórios anuais do Minister of Mines da Colúmbia Britânica estão digitalizados pelo BC Geological Survey e pela biblioteca da University of British Columbia, e o Nanaimo Archives mantém uma base de mortes e acidentes nas minas.
- Os BC Archives têm índices públicos de óbitos, inquéritos e espólios.
Mais sobre onde procurar do lado italiano está em Como pesquisar antepassados da província de Treviso.
Este texto faz parte da pesquisa do livro Terceira Classe, sobre a emigração italiana e o naufrágio do Principessa Mafalda, em 1927 — o navio em que as duas irmãs de Pietro vieram para o Brasil.