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25 de outubro de 1927 · 25 de outubro de 2027
Terceira Classe
3 de outubro de 2026

Como pesquisar antepassados da província de Treviso

Passei nove anos atrás de duas famílias do sopé do Monte Grappa, os Forner e os Miotto, de Monfumo e Castelcucco, na província de Treviso. Quase tudo o que aprendi sobre onde procurar foi errando antes. Este texto é para quem está começando a mesma busca — por curiosidade, por um livro ou pela cidadania italiana.

O que não está on-line, e quase todo mundo supõe que esteja

O primeiro lugar em que se procura é o Portale Antenati, do Ministério da Cultura italiano. Para a província de Treviso ele tem um fundo só: o registro civil napoleônico, de 1806 a 1812. Não há ali o registro civil italiano posterior a 1866 para estes comuni.

O FamilySearch tem o mesmo limite. Para Monfumo e Castelcucco, o catálogo traz só o período napoleônico, e a coleção Italia, Treviso, Stato civile (Tribunale), 1871-1941 não inclui nenhum dos dois. A paróquia de San Nicola Vescovo, em Monfumo, aparece com zero registros.

Na prática: os atos de nascimento, casamento e óbito de Monfumo e Castelcucco entre o fim do século XIX e os anos 1920 não estão digitalizados em lugar nenhum. Saem por pedido.

Onde eles estão

  • No próprio comune, no ufficio di stato civile. O registro civil italiano começou no Vêneto depois da anexação de 1866; os índices de Monfumo que usei começam em 1871. O pedido se faz por escrito, de preferência pelo endereço de PEC do comune, que fica no site oficial dele.
  • No Archivio di Stato di Treviso, que guarda a segunda via dos registros do tribunal depois de 1871 e atende pesquisa genealógica por correspondência.
  • Na paróquia, para o que é anterior ao registro civil. O batismo também nomeia os pais.

Peça a copia integrale, nunca o estratto

É o conselho que mais vale neste texto. O estratto per riassunto, a certidão resumida que os comuni emitem por padrão, corta justamente o que interessa a quem pesquisa: a profissão do pai, o endereço da casa, a idade da mãe, quem foi declarar o nascimento. A copia integrale é a cópia do ato inteiro. Para genealogia, é ela que se pede.

Di e fu: duas letras que dizem quem estava vivo

Em documento italiano, a filiação vem com uma fórmula fixa. Di antes do nome do pai quer dizer que ele estava vivo na data do documento. Fu quer dizer que já tinha morrido.

Numa carteira de identidade de 1940, a de um irmão da minha bisavó, o escrivão escreveu di Vincenzo e, na linha de baixo, fu Pandolfo Domenica Santa. Isso me disse que o pai deles estava vivo em 1940 — quando uma árvore genealógica pública o dava como morto em 1914. Em papéis de meados dos anos 1940, o mesmo homem já aparece como fu Vincenzo. Duas letras fecharam uma janela de cinco anos para a morte de alguém de quem eu não tenho o atestado de óbito.

O mesmo nome, escrito de quatro jeitos

Conte com isso desde o começo:

  • A mulher italiana não trocava de sobrenome ao casar. Nos papéis italianos, a minha bisavó é Forner a vida inteira. No Brasil ela virou Forner Miotto. Uma lista de navio de 1927 a registrou pelo sobrenome do marido; a repartição brasileira, três dias depois, pelo de solteira. Procure pelos dois.
  • O nome era ouvido, não copiado. Uma menina batizada Gina aparece em duas semanas de 1927 como Ginneta, Dinetta e Ginita, conforme o escrivão.
  • O mesmo prenome tem variantes: a minha trisavó está nos índices como Pandolfo Santa, Pandolfo Domenica e Santa Pandelfa. Era uma mulher só, chamada Domenica Santa.

Índice é ferramenta de busca, não prova

As transcrições de índices que circulam entre pesquisadores ajudam muito, mas o índice de nascimentos de Monfumo que eu usei não traz o sobrenome do pai — só o primeiro nome. E duas transcrições do mesmo índice discordavam justamente na linha que me interessava. Use o índice para achar o número do ato, e o ato para afirmar.

O mesmo vale para as genealogias impressas das histórias locais: a que existe para Castelcucco acerta a estrutura da família e erra datas — dá a minha bisavó nascida dois anos depois do que diz a certidão, e deixa de fora duas irmãs. E vale em dobro para as árvores colaborativas da internet, onde qualquer pessoa pode fundir dois homens diferentes num só, e o erro fica com a mesma cara de tudo o mais.

Se o antepassado foi para a guerra

O Albo d’Oro dei Caduti della Grande Guerra, pesquisável on-line por sobrenome, lista os mortos da Primeira Guerra. Quem voltou não está lá. Para quem voltou, o documento é o foglio matricolare, a folha de assentamento militar, guardada no Archivio di Stato da província — pede-se pelo nome, pelo nome do pai e pela classe de recrutamento (o ano de nascimento).

Se o antepassado saiu da Itália

O rastro costuma ser melhor do lado de lá, porque cada fronteira cruzada gera um papel. No Brasil: o registro de matrícula da Hospedaria dos Imigrantes, no Museu da Imigração do Estado de São Paulo; as relações de passageiros do Arquivo Nacional (sistema SIAN); a imprensa de época na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Nos Estados Unidos: os manifestos de Ellis Island. Foi num deles que encontrei um tio da minha avó que ninguém da família sabia ter atravessado o oceano — e essa história está noutro texto deste diário.

Este texto faz parte da pesquisa do livro Terceira Classe, sobre a emigração italiana para o Brasil e o naufrágio do Principessa Mafalda, em 1927. Se você pesquisa uma família de Monfumo, Castelcucco ou dos comuni vizinhos, escreva.

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