Ir para o conteúdo
25 de outubro de 1927 · 25 de outubro de 2027
Terceira Classe
Família

Verdura e Pica

San José de la Esquina, Santa Fe, Argentina

A bordo
  • Verdura, Maria (52)Terceira classe · Não sobreviveumãe de Josefina; irmã de Nicola Verdura, bisavô de Eugenio
  • Pica, Juan (não aparece na lista)Terceira classe · Não sobreviveupai de Josefina
  • Pica, GiuseppinaTerceira classe · SobreviveuJosefina, dezesseis anos
  • Pica, NicolaTerceira classe · Sobreviveuo irmão ou o primo de Josefina, os dois chamados Nicolás
  • Pica, NicolásTerceira classe · Sobreviveuo irmão ou o primo de Josefina, os dois chamados Nicolás
  • Pica, LorenzoTerceira classe · Sobreviveuprimo de Josefina, pelo trabalho escolar; para Eugenio, o próprio Juan
  • Pica, Juan (hijo) (não aparece na lista)Terceira classe · Não sobreviveuirmão mais novo de Josefina
  • Pica, Pascual (não aparece na lista)Terceira classe · Não sobreviveuirmão mais novo de Josefina
  • Paulina (não aparece na lista)Terceira classe · Não sobreviveucunhada de Josefina, recém-casada com Nicolás
A história

Os Pica eram de Fragneto Monforte, um povoado da província de Benevento, no sul da Itália. Juan Pica administrava as terras da condessa do lugar, dona Carlotta Cirelli de Pellegrini, e com esse trabalho sustentava a mulher, María Verdura, e os cinco filhos: Nicolás, María Rosa, Josefina, Juan e Pascual.

Juan tinha feito a Primeira Guerra Mundial e temia que viesse outra, e que o filho mais velho tivesse de ir. Por isso convenceu Nicolás a partir para a Argentina, para perto da família da mãe, os Verdura, no sul da província de Santa Fe. Nicolás arrendou um campo entre San José de la Esquina e Los Nogales, e de lá escrevia cartas chamando todos. Acabou convencendo. Voltou à Itália para ajudar a organizar a viagem e para se casar com a noiva, Paulina, que tinha ficado esperando. Convenceu também dois primos: Nicolás, solteiro, e Lorenzo, que deixou na Itália a mulher e uma filha de seis meses, porque queria ver primeiro o país de que o primo tanto falava.

Juan vendeu tudo o que tinha. Antes de partir, levou a filha María Rosa a Roma, porque ela queria ser freira, e ela ficou. Em 11 de outubro de 1927 os outros embarcaram em Gênova no Principessa Mafalda, para Buenos Aires: Juan e María, os filhos Nicolás, Josefina, Juan e Pascual, a nora Paulina e os dois sobrinhos.

Na noite do naufrágio, Josefina perdeu a família de vista. Morreram os pais, os dois irmãos menores e a cunhada. Ela tinha dezesseis anos. Chegou ao Rio de Janeiro sem lembrar como, sem saber quem a tinha socorrido, e por um tempo esperou que os pais e os irmãos estivessem vivos em algum lugar do Brasil, em Montevidéu ou em Buenos Aires. No Rio ficou aos cuidados da mulher do cônsul da Itália, que lhe deu casa, comida e roupa. O irmão Nicolás chegou a Montevidéu no navio francês Formose; os primos Nicolás e Lorenzo, a Buenos Aires. Josefina, que era muito religiosa, costumava dizer: «Deus só manda o que você é capaz de suportar.»

Em 7 de novembro de 1927 ela chegou a Buenos Aires sem bagagem nenhuma, e o tio Miguel Verdura a esperava. Foram de trem até Los Nogales e da estação até o campo de sulky; a ponte do arroio estava quebrada pelas brigas políticas daquele tempo, e atravessar foi difícil. O lugar não se parecia em nada com a terra dela. Foi viver com o tio Nicola Verdura, casado e com filhos, e a menina mimada de uma família de classe média virou a moça que cozinhava, cuidava das crianças e, na colheita, apanhava milho. Não a deixavam assistir às aulas do professor que ia à casa ensinar os primos; ela aprendia escutando escondida. Os tios deixaram que aprendesse a costurar: tirou o diploma da Academia de Corte Parisien Mendia, de Buenos Aires, com dez em todas as matérias, e o tio Miguel lhe comprou a máquina de costura.

Os primos ficaram pouco em Los Nogales. Voltaram para Buenos Aires, abriram um viveiro de plantas e o tiveram até o fim da vida. De medo do mar, nunca mais foram à Itália. Lorenzo nunca mais viu a mulher e a filha, que pelo mesmo medo nunca vieram. Escreviam-se, e nenhum dos dois voltou a ter companheiro.

María Rosa, a Rosina, chegou à Argentina como irmã Tomasina, a primeira das Pias Discípulas do Divino Mestre no país. No verão de 1931, quando o fundador, Giacomo Alberione, pediu missionárias, ela foi a escolhida para a Argentina, e contou depois que sentiu uma forte resistência antes de aceitar: teria de atravessar o mar onde os pais tinham morrido. Partiu em 10 de dezembro de 1931, no Conte Verde, e chegou a Buenos Aires em 30 de dezembro. São as datas da página da congregação; o trabalho escolar sobre Josefina diz 1936. Foi superiora das casas de Florida, Buenos Aires, Córdoba e Mar del Plata, e em Mar del Plata as duas irmãs se visitaram cada vez mais nos últimos anos. Morreu em 14 de fevereiro de 1992. Josefina recebeu a notícia enquanto fazia um bolo de aniversário.

Em 1944 Josefina conheceu Nicolás Viglione, viúvo, com um menino de seis anos e uma menina de dois. As famílias Viglione e Verdura eram vizinhas, e mesmo assim os dois namoraram por carta, pelo correio. O tio consentiu no casamento; a tia, ofendida, achou que era abandono e não foi. Viveram no campo até 1948 e depois numa casa em San José de la Esquina, onde Nicolás era mecânico e o taxista que levava os passageiros de e para a estação. Tiveram duas filhas, e Josefina criou os quatro filhos sem diferença nenhuma.

Na cidade, ela era «a modista». Costurava para a família e para fora, fazia até terno de homem, ensinou muitas mulheres a costurar, e com esse dinheiro pagou os estudos das filhas. A casa vivia cheia. Um dos quartos virou sala de oração, com santos, estampas, rosários e velas. Pediu aos filhos que, se adoecesse, não a deixassem no hospital, e morreu em casa, na própria cama, em 2002.

Eugenio passou muitos verões em San José de la Esquina com a avó, Anita Graciosa Verdura, filha de Nicola, que praticamente o criou e foi muito próxima de Josefina até o fim. Ele guarda o sorriso da tia: tinha perdido tudo no naufrágio e construiu uma família, com amor para todos à volta.

Fica um ponto em aberto. Na lista de sobreviventes há três Pica da terceira classe: Lorenzo, Nicola e Nicolás. Pelo trabalho escolar, são o irmão Nicolás e os dois primos. Eugenio lembra de outro modo: para ele, Lorenzo e Juan eram a mesma pessoa, conhecida por um nome ou pelo outro, e numa fotografia anotada por ele o pai aparece como «Juan Pica (Pasquale di Lorenzo)» — em italiano, di Lorenzo quer dizer filho de Lorenzo. A lista de 1927 foi escrita de ouvido e não resolve. As duas versões ficam aqui.

Fotografias da família
  • Juan Pica e María Verdura com os filhos, na Itália, antes da viagem. Josefina é a menina à esquerda; María Rosa, a futura irmã Tomasina, está à direita.
  • Josefina Pica, moça.
  • As notas de Josefina na Academia de Corte Parisien Mendia, de Buenos Aires. Dez em todas as matérias.
  • Josefina, num retrato colorido à mão.
  • Josefina vestida de noiva, no casamento com Nicolás Viglione.
  • Josefina e Nicolás Viglione.
  • María Rosa Pica com o hábito das Pias Discípulas do Divino Mestre.
  • A madre Tomasina.

Fotografias do acervo da família, enviadas por Eugenio Daniel Griegues.

O relato, em espanhol

María Verdura, mi tía bisabuela, era la hermana de mi bisabuelo Nicola Verdura. Murió en el naufragio junto a su marido Juan Pica. Mi tía Josefina (Giuseppina) Pica Verdura sobrevivió al naufragio con solo 16 años, y vivió junto a la familia de mi abuela y bisabuelo, los Verdura, en un pueblo de Santa Fe, San José de la Esquina. La hija de Josefina, mi tía Ana María Vigliolne, Pili, aún vive en San José de la Esquina y tiene muchas anécdotas.

Mi tía Josefina era hermana de la conocida monja, la hermana Tomassina, María Rosa Pica Verdura. La hermana Tomassina no subió al barco con su familia: se quedó en Italia para ordenarse monja, y por eso vivió.

De onde vem esta história

O texto se apoia nas mensagens de Eugenio Daniel Griegues, de outubro de 2026, e em Historia de una inmigrante italiana, trabalho dos alunos do 4º ano da Escola de Educação Média nº 226 de San José de la Esquina, escrito a partir dos relatos de Ana María Viglione, filha de Josefina. O que se conta da irmã Tomasina na congregação — a escolha para a Argentina, a viagem de 1931, as casas e a morte — vem da página das Pias Discípulas do Divino Mestre (pddm.org). Os nomes de bordo são os da lista de sobreviventes e vítimas de 1927.

Contada por Eugenio Daniel Griegues. Recebida em 3 de outubro de 2026.

Compartilhar

← Todas as histórias

A sua família também estava a bordo?

Procure o nome na lista de passageiros e conte a história. Ela pode entrar aqui, se você autorizar.

Procurar na lista